{"id":20427,"date":"2012-05-25T10:01:40","date_gmt":"2012-05-25T13:01:40","guid":{"rendered":"http:\/\/planetaorganico.com.br\/site\/?p=20427"},"modified":"2021-09-13T15:33:09","modified_gmt":"2021-09-13T18:33:09","slug":"agrotox-longedaverdade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/agrotox-longedaverdade\/","title":{"rendered":"A QUEST\u00c3O DOS AGROT\u00d3XICOS: LONGE DA VERDADE, Por Elenita Malta Pereira"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Elenita Malta Pereira \u00e9 doutoranda em Hist\u00f3ria na UFRGS<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o p\u00fablico que est\u00e1 sendo solicitado a assumir os riscos que os controladores de insetos calculam. (&#8230;) A obriga\u00e7\u00e3o de tolerar, de suportar, d\u00e1-nos o direito de saber (Rachel Carson, em Primavera Silenciosa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mat\u00e9ria &#8220;A verdade sobre os agrot\u00f3xicos&#8221;, publicada na Veja (edi\u00e7\u00e3o de 4\/1\/2012), revisita um tema que \u00e9 alvo de pol\u00eamicas, oposi\u00e7\u00f5es apaixonadas e amplas discuss\u00f5es no Brasil desde os anos de 1970. No entanto, apesar de d\u00e9cadas de controv\u00e9rsia, j\u00e1 no t\u00edtulo, a revista demonstra que pretende revelar a verdade sobre o assunto. A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Agroecologia (ABA), em<span style=\"color: #0000ff;\"> <a href=\"http:\/\/www.aba-agroecologia.org.br\/aba\/images\/carta_veja.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">carta-resposta<\/a> <\/span> \u00e0 Veja, considerou o tratamento dado a um tema controverso t\u00e3o como &#8220;parcial e tendencioso&#8221;, apontando uma s\u00e9rie de equ\u00edvocos na reportagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Primavera Silenciosa, o primeiro alerta mundial contra os pesticidas, publicado em 1962, Rachel Carson descreveu diversos casos de pulveriza\u00e7\u00f5es \u2013 especialmente de diclorodifeniltricloroetano (DDT) \u2013 nos Estados Unidos, nos anos 1950-60, quando morrem enormes quantidades de p\u00e1ssaros, peixes, selvagens animais e dom\u00e9sticos. Como pulveriza\u00e7\u00f5es para exterminar supostas &#8220;pragas&#8221; tamb\u00e9m contaminaram as \u00e1guas de rios, c\u00f3rregos, dos oceanos, os solos e os humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carson j\u00e1 h\u00e1 50 anos, que a quest\u00e3o dos res\u00edduos qu\u00edmicos nos alimentos era tema de ardorosos debates. A exist\u00eancia de res\u00edduos ou era desprezada pela ind\u00fastria, que a considerava sem import\u00e2ncia, ou era francamente negada. No entanto, pesquisas comprovavam, j\u00e1 naquela \u00e9poca a associa\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do DDT no corpo humano com a alimenta\u00e7\u00e3o, ao analisar a gordura humana e amostras de alimentos em restaurantes e refeit\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Jornalistas usam o termo agrot\u00f3xico<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Motivada pela divulga\u00e7\u00e3o, em dezembro de 2011, de um estudo sobre contamina\u00e7\u00e3o de alimentos por agrot\u00f3xicos promovido pela Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) referente ao ano de 2010, a reportagem da Veja come\u00e7a questionando o uso da palavra &#8220;agrot\u00f3xico&#8221;: o &#8220;nome certo \u00e9 defensivo&#8221;. Segundo a mat\u00e9ria, &#8220;agrot\u00f3xico&#8221; \u00e9 um termo impreciso e carregado de julgamento valor; j\u00e1 &#8220;defensivos&#8221; seriam corretos, porque esses produtos n\u00e3o servem para intoxicar o ambiente ou o consumidor, mas para &#8220;defender&#8221; a planta\u00e7\u00e3o de pragas, insetos e parasitas. Esse debate \u00e9 antigo, constru\u00eddo ao longo de uma verdadeira contenda, que foi protagonizada por ecologistas, pol\u00edticos e representantes das ind\u00fastrias agroqu\u00edmicas, desde os anos de 1970. A pr\u00f3pria nomina\u00e7\u00e3o dos agroqu\u00edmicos determinava de que &#8220;lado&#8221; fosse quem nomeava: de um lado executivos das ind\u00fastrias fabricantes que, obviamente, queriam vender seus produtos, pesquisadores que recebiam financiamento dessas empresas para suas pesquisas e funcion\u00e1rios p\u00fablicos, todos trabalhando para &#8220;defender&#8221; seus interesses. Do outro lado, entidades ambientalistas de v\u00e1rios estados, professores universit\u00e1rios e pesquisadores preocupados com o efeito esses produtos na sa\u00fade das pessoas e da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo agrot\u00f3xico, mais do que portar um ju\u00edzo de valor, est\u00e1 consolidado na legisla\u00e7\u00e3o brasileira sobre o tema, a Lei 7.802\/89. A palavra j\u00e1 estava presente na primeira legisla\u00e7\u00e3o estadual, a Lei 7.747, publicada no Rio Grande do Sul, em dezembro de 1982, fruto de um amplo debate liderado por pol\u00edticos, pesquisadores e ecologistas. O ecologista Jos\u00e9 Lutzenberger considera a publica\u00e7\u00e3o dessa lei uma &#8220;vit\u00f3ria sem precedentes&#8221;, uma conquista da sociedade civil, in\u00e9dita em diversos pa\u00edses. Por outro lado, o termo &#8220;defensivos agr\u00edcolas&#8221; tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 isento de valor: expressa que essas subst\u00e2ncias s\u00e3o boas defendem, a lavoura de pragas. No entanto, o pr\u00f3prio conceito do que pode ser considerado praga \u00e9 question\u00e1vel, depende do ponto de vista de quem est\u00e1 observando uma planta\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 praga na agricultura que usa qu\u00edmicos pode ser um aliado no controle natural de insetos realmente prejudiciais, e at\u00e9 mesmo um indicador da sa\u00fade das plantas para quem pratica agricultura ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interessante \u00e9 que, apesar de afirmar que o certo \u00e9 &#8220;defensivo agr\u00edcola&#8221;, como jornalistas usam, em trechos da reportagem, o termo agrot\u00f3xico \u2013 n\u00e3o como cita\u00e7\u00e3o de outra fonte, o que \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Um &#8220;tiro no p\u00e9&#8221;<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mat\u00e9ria da Veja afirma que apenas uma parte muito pequena das amostras analisadas pela Anvisa continha agrot\u00f3xicos acima do permitido. Mais ainda, que os motivos dessa ocorr\u00eancia envolvem os agricultores: ou eles aplicaram doses acima ou o per\u00edodo de car\u00eancia. A estrat\u00e9gia de culpar o agricultor tamb\u00e9m dados de bastante tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde os anos de 1970, o problema, para os defensores da qu\u00edmica na agricultura, nunca \u00e9 o produto, mas sim, o agricultor, como se a toxicidade s\u00f3 dependesse do uso e n\u00e3o dos componentes utilizados na fabrica\u00e7\u00e3o. A propaganda agrot\u00f3xico de agrot\u00f3xicos, em geral, anuncia cada novo pesticida como &#8220;mais eficaz&#8221; no combate \u00e0s pragas, mais eficiente que o anterior, s\u00f3 que, muitas vezes, n\u00e3o dizia que era tamb\u00e9m mais venenoso. Mas a verdadeira avalanche de casos de intoxica\u00e7\u00e3o de agricultores demonstram que os produtos s\u00e3o muito perigosos. At\u00e9 porque, se n\u00e3o fossem, n\u00e3o haveria necessidade do desenho de caveiras em seus r\u00f3tulos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mat\u00e9ria da Veja faz afirma\u00e7\u00f5es de forma leviana e irrespons\u00e1vel para a popula\u00e7\u00e3o leiga no assunto, passando a impress\u00e3o de que os agrot\u00f3xicos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o perigosos assim. Ela diz que os alimentos que lideram o ranking da Anvisa de forman\u00edveis representariam risco \u00e0 sa\u00fade, que os res\u00edduos est\u00e3o dentro dos seguros e que o uso de agrot\u00f3xicos n\u00e3o autorizados n\u00e3o \u00e9 prejudicial \u00e0 sa\u00fade. Neste \u00faltimo caso, a justificativa seria o alto custo para os fabricantes alterarem os r\u00f3tulos, indicando outros cultivos onde os pesticidas poderiam ser utilizados. Aqui, podemos perceber mais uma vez que os interesses das empresas sempre s\u00e3o relevantes e merecem ser preservados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a reportagem se \u2013 contra \u2013 contra \u2013 declarando que os res\u00edduos de agrot\u00f3xicos n\u00e3o podem ser removidos dos alimentos com \u00e1gua, ou qualquer outra subst\u00e2ncia, j\u00e1 que o veneno penetra na polpa do alimento ou circula pela seiva da planta. Essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 um &#8220;tiro no p\u00e9&#8221;, muito negativo para quem quer defender os &#8220;defensivos&#8221;, e refor\u00e7a o argumento de quem luta contra os agrot\u00f3xicos: um dos maiores problemas \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o dos pesticidas no meio ambiente, por muito tempo; dependendo do produto, pode levar anos ou d\u00e9cadas para desintegrar-se, como \u00e9 o caso bastante conhecido do DDT. Ali\u00e1s, a mat\u00e9ria relata que, se o seguir agricultor a bula corretamente, &#8220;o produto sofrer\u00e1 degrada\u00e7\u00e3o natural com a a\u00e7\u00e3o dos raios solares, da chuva e de microrganismos&#8221;. Segundo a ABA, isso \u00e9 uma inverdade: &#8220;como consequ\u00eancias ambientais e para a sa\u00fade, em fun\u00e7\u00e3o de uma aplica\u00e7\u00e3o que deixou residual, pode permanecer por muito tempo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Preju\u00edzos n\u00e3o contabilizados<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a mat\u00e9ria da Veja, s\u00f3 h\u00e1 riscos \u00e0 sa\u00fade do agricultor quando ele n\u00e3o respeita as regras de uso, j\u00e1 que os equipamentos de seguran\u00e7a do contato com o veneno. No entanto, nem sempre o agricultor tem acesso a esses equipamentos ou \u00e0 informa\u00e7\u00e3o de como utiliz\u00e1-los corretamente. Al\u00e9m disso, h\u00e1 muitos casos de intoxica\u00e7\u00e3o que dependem de seu uso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consultando os arquivos dos jornais de maior circula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, \u00e9 poss\u00edvel constatar uma quantidade impressionante de not\u00edcias sobre envenenamento e morte de agricultores, cuja causa envolveu a aplica\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos na lavoura. H\u00e1 per\u00edodos em que as ocorr\u00eancias s\u00e3o di\u00e1rias, envolvendo fam\u00edlias inteiras, em cidades do interior do Brasil. Casos de jovens que dormem durante meses, sem perspectiva de acordar, depois do contato com agrot\u00f3xicos; beb\u00eas que ficaram doentes por causa do leite, j\u00e1 que a vaca que o fornecia comeu pasto contaminado com pesticidas; crian\u00e7as que morremam por ingest\u00e3o de \u00e1gua; contaminada agricultores fulminados durante pulveriza\u00e7\u00f5es a\u00e9reas sem aviso pr\u00e9vio, entre outros, s\u00e3o exemplos nefastos de que o equipamento n\u00e3o \u00e9 garantia de seguran\u00e7a total.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Artigo da Gazeta Mercantil (Porto Alegre, 28\/05\/1975) relata que o consumo de pesticidas no Brasil aumentou dez vezes entre 1964 e 1974 e questiona: &#8220;em que medida consumo esse teria sido fortemente incentivado, provocando o uso indiscriminado e exagerado de defensivos?&#8221; Se por volta de 1974 o consumo somava cerca de 74 mil toneladas anuais, o que dizer das cerca de 1 milh\u00e3o toneladas em 2010 (de acordo com dados do Sindicato Nacional da Ind\u00fastria de Produtos para a Defesa Agr\u00edcola)? O est\u00edmulo ao uso intensivo esses produtos interessam aos fabricantes, pelos alt\u00edssimos ganhos, mas, ao mesmo tempo, provocam preju\u00edzos n\u00e3o totalmente contabilizados ao meio ambiente e \u00e0 vida humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>O maior consumidor mundial de agrot\u00f3xicos<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m segundo a reportagem da Veja, n\u00e3o haveria comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de que o consumo a longo prazo de res\u00edduos de pesticidas nos alimentos provoque problemas s\u00e9rios em seres humanos. Essa constata\u00e7\u00e3o demonstra um profundo desconhecimento da literatura cient\u00edfica sobre os efeitos desses produtos na sa\u00fade humana. Em <a href=\"http:\/\/www1.inca.gov.br\/inca\/Arquivos\/diretrizes_cancer_ocupa.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> <span style=\"color: #0000ff;\">relat\u00f3rio<\/span> <\/a> de 2012, elaborado pelo Instituto Nacional do C\u00e2ncer Jos\u00e9 de Alencar Gomes da Silva (Inca) consta que &#8220;importantes compostos cancer\u00edgenos encontram-se entre os metais pesados, os agrot\u00f3xicos, os solventes e as poeiras&#8221;. Al\u00e9m da popula\u00e7\u00e3o rural, que fica mais exposta pelo manuseio desses produtos, &#8220;toda a popula\u00e7\u00e3o pode ter contato com agrot\u00f3xicos, seja pela ocupa\u00e7\u00e3o, pela alimenta\u00e7\u00e3o ou pelo meio ambiente&#8221;. Subst\u00e2ncias como o DDT, clordane e lindane s\u00e3o promotoras de tumores. O relat\u00f3rio cita uma extensa bibliografia de estudos que relacionam, entre outros agentes, agrot\u00f3xicos e c\u00e2ncer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cientistas da Universidade de Caen, na Fran\u00e7a, que pesquisam h\u00e1 anos os efeitos das herbicidas \u00e0 base de glifosato (recordistas de vendas no Brasil), descobriram que eles cont\u00eam toxicidade que afetadiretamente como c\u00e9lulas humanas. Em artigos cient\u00edficos recentes, os pesquisadores afirmaram que mesmo pequenos res\u00edduos que ficam nos alimentos podem causar danos, especialmente ao rim humano. Artigo de professora da USP (<a href=\"http:\/\/www2.fct.unesp.br\/nera\/artigodomes\/9artigodomes_2011.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span style=\"color: #0000ff;\">Larissa Bombardi,<\/span> <\/a> 2011) afirma, a partir de dados do Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es T\u00f3xicos-Farmacol\u00f3gicas \u2013 Minist\u00e9rio da Sa\u00fade\/Fiocruz (Sinitox), que no per\u00edodo de 1999 a 2009 ocorreram cerca de 62 mil intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos de uso agr\u00edcola no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra informa\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria da Veja \u00e9 que &#8220;o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses mais rigorosos no registro de agrot\u00f3xicos&#8221;. No entanto, segundo a ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), nosso pa\u00eds \u00e9 o principal destino de agrot\u00f3xicos proibidos no exterior. Diversos produtos vedados nos Estados Unidos e na Europa s\u00e3o comercializados livremente aqui. Se o controle fosse rigoroso mesmo, o Brasil seria o maior consumidor mundial de agrot\u00f3xicos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Solo nutrido, planta saud\u00e1vel<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encaminhando-se para a final, uma reportagem p\u00f5e em d\u00favida a nota de \u00e7\u00e3o dos alimentos org\u00e2nicos, aqueles que s\u00e3o cultivados sem agrot\u00f3xicos. Ela questiona como regras para credenciamento e fiscaliza\u00e7\u00e3o: com um controle insuficiente, haveria riscos \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o no consumo de alimentos org\u00e2nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Citando o caso de contamina\u00e7\u00e3o por Escherichia coli, ocorrido em junho de 2011, na Alemanha, em que as pessoas morrem ao consumir brotos de feij\u00e3o germinados produzidos por uma fazenda org\u00e2nica, a mat\u00e9ria da Veja conclui que &#8220;n\u00e3o s\u00f3 por ser org\u00e2nico produto um \u00e9 necess\u00e1rio e automaticamente mais saud\u00e1vel que o cultivado semelhante com o aux\u00edlio de defensivos&#8221;. Sem a gravidade das mortes ocorridas na Alemanha, \u00e9 muito precipitado afirmar que n\u00e3o haveria diferen\u00e7a de risco no consumo de alimentos org\u00e2nicos ou n\u00e3o-org\u00e2nicos. Esse foi um caso isolado, que poderia ter ocorrido mesmo se a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse org\u00e2nica, afinal, \u00e9 poss\u00edvel garantir que a fiscaliza\u00e7\u00e3o dos alimentos que usam produtos t\u00f3xicos seja eficiente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A humanidade viveu mil\u00eanios praticando agricultura sem venenos. S\u00f3 ap\u00f3s a segunda guerra mundial o uso da qu\u00edmica na lavoura passou a ser recomendado como a melhor solu\u00e7\u00e3o para o combate das &#8220;pragas&#8221; e para acabar com a fome no mundo \u2013 o que n\u00e3o ocorreu: os insetos ficaram resistentes aos venenos e muitas pessoas passando fome ainda no s\u00e9culo 21. A chamada &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Verde&#8221; introduziu t\u00e9cnicas alardeadas como &#8220;modernas&#8221; (cultivo intensivo do solo, monocultura, irriga\u00e7\u00e3o, controle qu\u00edmico de pragas e manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de plantas), mas que geram depend\u00eancia dos agricultores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas que vendem os insumos vinculados a esse tipo de agricultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A produ\u00e7\u00e3o de alimentos org\u00e2nicos, atrav\u00e9s de m\u00e9todos agroecol\u00f3gicos, n\u00e3o \u00e9 para grandes empresas que controlam o agroneg\u00f3cio no Brasil. Os org\u00e2nicos n\u00e3o dependem da compra de sementes ou da compra de agrot\u00f3xicos. Na agricultura ecol\u00f3gica, ou org\u00e2nica, o agricultor \u00e9 aut\u00f4nomo, controla sua semente e seus pr\u00f3prios insumos, entre eles, mat\u00e9ria org\u00e2nica (compostagem, folhas de \u00e1rvores, res\u00edduos industriais, estrume, etc). O agrot\u00f3xico convencional considera como praga (insetos, fungos), ou erva daninha que deve ser exterminada pelos anos, na agricultura ecol\u00f3gica \u00e9 um sintoma, indicador da sa\u00fade da planta e do solo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro Plantas doentes pelo uso de agrot\u00f3xicos, o engenheiro agr\u00f4nomo franc\u00eas Francis Chaboussou divulga a &#8220;teoria da trofobiose&#8221;. Ap\u00f3s anos de pesquisa, concluiu que o uso continuado de agrot\u00f3xicos adoece como plantas. E apenas como plantas doentes, em desequil\u00edbrio metab\u00f3lico, s\u00e3o atacadas pelos parasitas. A planta equilibrada em crescimento vigoroso ou em descanso n\u00e3o \u00e9 nutritiva para as pragas. Na verdade, na agricultura ecol\u00f3gica, a propriedade rural \u00e9 pensada como um agroecossistema, em que a observa\u00e7\u00e3o das intera\u00e7\u00f5es que ocorrem no meio ambiente \u00e9 vital. Solo nutrido, planta saud\u00e1vel. Inseridos na diversidade de esp\u00e9cies da propriedade agr\u00edcola, os alimentos org\u00e2nicos tendem a ser muito mais saud\u00e1veis que os n\u00e3o-org\u00e2nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Bases fr\u00e1geis<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em abril de 2012, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco) divulgou a primeira parte de um <a href=\"http:\/\/www.abrasco.org.br\/UserFiles\/File\/ABRASCODIVULGA\/2012\/DossieAGT.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> <span style=\"color: #0000ff;\">dossi\u00ea<\/span> <\/a> sobre os impactos dos agrot\u00f3xicos na sa\u00fade. Escrito por professores universit\u00e1rios e pesquisadores com larga experi\u00eancia no assunto, o dossi\u00ea externa a preocupa\u00e7\u00e3o desses profissionais com a escalada ascendente de uso de agrot\u00f3xicos no Brasil e a contamina\u00e7\u00e3o do ambiente e das pessoas dela resultante, com severos impactos sobre a sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio cita exemplos de cidades onde ocorre a contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, no Cear\u00e1 e em Mato Grosso, com destaque para Lucas do Rio Verde (MT), onde &#8220;chuvas de agrot\u00f3xicos&#8221;, ou seja, pulveriza\u00e7\u00f5es a\u00e9reas indiscriminadas causaram surto de intoxica\u00e7\u00f5es agudas em crian\u00e7as e idosos, bem como contamina\u00e7\u00e3o do leite materno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como bases cientificas que sustentam o uso dos agrot\u00f3xicos s\u00e3o fr\u00e1geis (&#8220;deveria caber \u00e0s empresas demonstrar com rigor que n\u00e3o s\u00e3o nocivos para a sa\u00fade humana ou para o meio ambiente&#8221;), os pesquisadores questionam: &#8220;\u00c9 l\u00edcito os manter agrot\u00f3xicos em uso na agricultura contexto nesse?&#8221; Al\u00e9m disso, os in\u00fameros casos de contamina\u00e7\u00f5es de trabalhadores e popula\u00e7\u00e3o em geral, desde os anos de 1970 at\u00e9 hoje, oneram o SUS, custando muitos milh\u00f5es aos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>O direito de saber<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como podemos perceber, a &#8220;verdade sobre os agrot\u00f3xicos&#8221; est\u00e1 bem longe de ser alcan\u00e7ada. O debate est\u00e1 polarizado: de um lado, as ind\u00fastrias e os comerciantes, a quem interessa divulgar que os &#8220;defensivos&#8221; n\u00e3o causam danos \u00e0 sa\u00fade humana; do outro, profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade engajados na posi\u00e7\u00e3o de que os agrot\u00f3xicos fazem sim muito mal aos humanos e aos ecossistemas onde s\u00e3o aplicados. A preocupa\u00e7\u00e3o aumenta na mesma medida que o consumo desses produtos no Brasil, que desde 2008 carrega o t\u00edtulo nada honr\u00e1vel de maior comprador de agrot\u00f3xicos do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe ao consumidor ficar atento ao debate, \u00e0 hist\u00f3ria e aos interesses por tr\u00e1s dele. Afinal, como j\u00e1 dizia Rachel Carson l\u00e1 em 1962, n\u00f3s temos o direito de saber. N\u00e3o m\u00ednimo.<\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 o p\u00fablico que est\u00e1 sendo solicitado a assumir os riscos que os controladores de insetos calculam. (&#8230;) A obriga\u00e7\u00e3o de tolerar, de suportar, d\u00e1-nos o direito de saber (Rachel Carson, em Primavera Silenciosa).<br \/>\nMaio 2012<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":""},"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20427"}],"collection":[{"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20427"}],"version-history":[{"count":10,"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20427\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32282,"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20427\/revisions\/32282"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20427"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20427"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/planetaorganico.agropecuaria.ws\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20427"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}